No início do século vinte, nenhum homem que se prezasse usava relógio no pulso. Aquilo era considerado adorno feminino, e os cavalheiros carregavam seus relógios de bolso presos por correntes aos coletes, um gesto elegante, mas pouco prático para quem precisava das duas mãos livres. Foi exatamente esse problema que um aviador brasileiro, radicado em Paris havia anos, levou para o ateliê de um joalheiro amigo seu, e dessa conversa nasceu um dos objetos mais influentes da história da moda masculina.

Alberto Santos Dumont já era uma celebridade parisiense antes mesmo de completar seus feitos mais lembrados. Filho de fazendeiros de café que enriqueceram no interior de São Paulo, ele se mudou ainda jovem para a França, onde se dedicou de corpo e alma à aviação em seus primeiros e mais frágeis anos. Pilotar aqueles balões e dirigíveis rudimentares exigia atenção total e as duas mãos nos comandos, e Santos Dumont enfrentava a dificuldade de soltar o leme por um instante para tatear o bolso em busca do relógio, toda vez que precisava calcular tempo de voo ou cumprir um desafio cronometrado.

Foi então que ele compartilhou essa frustração com Louis Cartier, herdeiro da maison francesa de joalheria e amigo próximo de longa data. Cartier compreendeu o problema com a sensibilidade de quem já pensava o relógio como peça de design, e não apenas como mecanismo. Em 1904, com a colaboração do relojoeiro Edmond Jaeger, ele desenvolveu um relógio de caixa quadrada, fina e discreta, preso ao pulso por uma pulseira de couro, com mostrador de números romanos que podia ser lido em uma fração de segundo. Os parafusos visíveis na caixa, hoje uma assinatura reconhecível da grife, cumpriam ali uma função estrutural além de estética, prendendo firmemente o vidro à estrutura durante as vibrações do voo.

Santos Dumont passou a usar aquele relógio em seus testes e demonstrações públicas, e sua popularidade fez o objeto circular por toda a alta sociedade parisiense muito antes de qualquer estratégia comercial. Só em 1911 a Cartier começou a produzir o modelo, batizado de Santos, para venda ao público em geral, oferecido inicialmente em platina ou ouro amarelo. A peça se tornaria, décadas depois, um dos pilares da coleção da marca, atravessando o modernismo art déco dos anos vinte, um período de menor popularidade durante a Segunda Guerra e um retorno triunfal que a mantém relevante até os dias de hoje.

O que torna essa história particularmente interessante não é apenas a genialidade do design, mas o contexto em que ele nasceu. Antes de existir qualquer conceito de relógio esportivo ou utilitário, foi uma necessidade real e uma amizade sincera que empurraram a relojoaria para fora do bolso e para o pulso, mudando para sempre a forma como os homens se relacionam com seus acessórios de pulso. Cada vez que alguém olha discretamente para o relógio durante uma reunião ou um voo, está repetindo, sem saber, o mesmo gesto que um brasileiro fez pela primeira vez há mais de cento e vinte anos, sobrevoando os céus de Paris.

Hoje, escolher um bom relógio continua sendo uma decisão que fala sobre praticidade e também sobre identidade, um raciocínio que vale para qualquer peça que acompanha o dia a dia de um homem, das mais discretas às mais marcantes, disponíveis também na coleção da Pison.

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